A Anatel realizou mais uma audiência pública sobre o leilão das frequências que devem ser usadas para implementar o 6G no Brasil. O encontro presencial com empresas e representantes da sociedade aconteceu em São Paulo nesta quarta-feira (21), uma semana depois da primeira audiência sobre o tema, em Brasília, e ficou marcado pela oposição das operadoras ao calendário apresentado pela agência. Enquanto a Anatel já começou a se mexer para preparar a chegada do 6G ao Brasil , as grandes operadoras sugerem pisar no freio. A questão está principalmente no calendário. Começando as primeiras tomadas de subsídios agora, em 2026, a agência trabalha com a possibilidade de realizar um leilão da faixa de 6 GHz em 2028. As operadoras argumentam, porém, que a padronização da tecnologia que será usada no 6G ainda está em desenvolvimento e deve avançar até 2028 ou 2029 no 3GPP, organização global responsável pelos padrões das redes móveis. Em entrevista exclusiva ao Canaltech, Felipe Lima, gerente de Regulamentação da Superintendência de Planejamento e Regulamentação (SPR) da Anatel , explicou que a intenção da agência neste momento não é apressar a implementação da nova geração, mas começar o debate com antecedência e dar transparência ao processo. Segundo Lima, preparar uma nova geração de redes móveis é um processo que leva anos. O 5G, inclusive, ainda está em expansão no país. Depois que o texto de uma licitação fica pronto, por exemplo, o Tribunal de Contas da União (TCU) ainda pode levar até 150 dias para analisar o edital antes de autorizar a realização do leilão. “Será feito um estudo de viabilidade econômica antes de o TCU precificar essa licitação”, afirmou Lima, indicando que as empresas interessadas em adquirir uma fatia da faixa de 6 GHz devem conhecer antecipadamente os custos e compromissos relacionados ao processo. O que a Anatel está propondo para a faixa de 6 GHz A consulta em andamento não trata apenas de reservar frequências para o futuro 6G. A Anatel também começou a desenhar como a faixa de 6 GHz pode ser dividida , quais empresas poderão disputar o espectro e, principalmente, quais obrigações deverão acompanhar as licenças. A minuta em discussão organiza a faixa em 14 lotes nacionais e regionais , com blocos destinados a sistemas móveis e autorizações de uso por 20 anos . O objetivo é disponibilizar blocos amplos e contíguos de espectro, reduzindo a fragmentação da faixa e permitindo maior eficiência das redes. A proposta também associa a aquisição das frequências a compromissos de investimento . Entre as metas previstas estão a ampliação de redes de transporte em fibra óptica e a cobertura móvel de localidades que ainda têm infraestrutura limitada . Essas obrigações devem começar a ser cumpridas entre o fim de 2029 e 2030. A Anatel ainda precisa detalhar quais municípios e localidades serão beneficiados. Essa lista será importante para definir o tamanho real dos investimentos exigidos das operadoras e evitar que novos compromissos se sobreponham a obrigações de outros programas públicos já em andamento. Outro ponto sensível são localidades hoje atendidas exclusivamente pela Oi, cuja continuidade de atendimento depois de 2028 também entra na discussão sobre o desenho das novas obrigações. A intenção da agência é repetir parte da lógica usada no leilão do 5G: em vez de concentrar o valor pago pelas frequências diretamente nos cofres públicos, uma parcela significativa pode ser transformada em investimentos obrigatórios nas próprias redes de telecomunicações . Leilão pode repetir modelo usado no 5G Lima espera que o futuro leilão sirva novamente como referência internacional, como aconteceu com o processo do 5G. Em 2021, o leilão brasileiro foi desenhado para ser majoritariamente não arrecadatório. Ou seja, a maior parte do valor movimentado pelas frequências não foi diretamente para o governo, mas convertida em obrigações de investimento das empresas vencedoras. O processo movimentou cerca de R$ 47,2 bilhões . Desse montante, aproximadamente R$ 7,4 bilhões foram pagos em outorgas à União pelo direito de exploração das frequências, enquanto cerca de R$ 39,8 bilhões , ou aproximadamente 85% do total, ficaram vinculados a compromissos de infraestrutura e modernização das redes. É justamente esse modelo que a Anatel pretende usar como referência na preparação da faixa de 6 GHz. Operadoras ainda tentam recuperar investimento do 5G Apesar de a Anatel considerar bem-sucedido o processo regulatório do 5G e sua expansão de cobertura, as operadoras apresentaram uma visão mais cautelosa durante a audiência desta quarta-feira. A Vivo, por exemplo, afirmou que a implementação do 5G não provocou até agora um salto comercial comparável ao observado durante a transição para o 4G. A empresa ainda encontra dificuldades para transformar as novas capacidades da rede em receitas adicionais. O próprio Canaltech já analisou essa diferença entre as promessas apresentadas no início da década e aquilo que chegou efetivamente ao consumidor. Em uma pesquisa feita em 2025 nas redes sociais do Canaltech, com participação de 3,2 mil pessoas, 85% dos entrevistados afirmaram que o 5G provocou pouca ou nenhuma mudança no consumo de dados móveis . Para tarefas cotidianas, como enviar mensagens ou navegar em redes sociais, muitos usuários simplesmente não perceberam uma diferença tão grande. Parte das grandes promessas da tecnologia também ainda não se concretizou em escala. A baixa latência do 5G, por exemplo, foi apresentada como uma tecnologia capaz de viabilizar aplicações como controle remoto de equipamentos médicos e comunicação em tempo real entre veículos autônomos. Para isso, porém, é necessária uma infraestrutura de rede muito mais densa e cara, que não foi instalada em grande escala no Brasil nem em boa parte do mundo. Esse histórico ajuda a explicar por que as operadoras defendem mais cautela antes de assumir uma nova rodada de investimentos para o 6G. TIM também quer cautela antes do leilão A TIM era a única entre as grandes operadoras que ainda não havia apresentado publicamente uma posição mais detalhada sobre o processo. A empresa participou da audiência em São Paulo por meio de Carlos Eduardo Franco, diretor de Assuntos Regulatórios da companhia . Franco defendeu que eventuais obrigações ambientais, sociais e de governança relacionadas ao processo sejam mensuráveis e possam ser auditadas. Para a empresa, a expansão das redes deve considerar eficiência energética, gestão de resíduos, inclusão digital e governança. Debate sobre o 6G ainda está começando Apesar do cronograma de 2028, o processo está longe de uma decisão definitiva. As audiências realizadas em Brasília e São Paulo fazem parte de uma discussão que ainda deve continuar nos próximos meses. A Anatel já planeja realizar um terceiro encontro presencial em Fortaleza, em novembro . A consulta pública também segue aberta no site da agência e teve seu prazo prorrogado até 7 de dezembro , permitindo que empresas, entidades e cidadãos enviem contribuições para a proposta. Só depois desse processo a Anatel começará a consolidar o texto que poderá resultar no edital do futuro leilão.

Anatel já planeja 6G no Brasil, mas operadoras querem pisar no freio
Anatel já planeja 6G no Brasil, mas operadoras querem pisar no freio · Imagem: Source: canaltech.com.br
Anatel já planeja 6G no Brasil, mas operadoras querem pisar no freio
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Anatel já planeja 6G no Brasil, mas operadoras querem pisar no freio
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6G teste verizon ericsson
6G teste verizon ericsson · Imagem: Imagem gerada por IA