Casa comprada por Amim em Camboinhas, Niterói — Foto: Reprodução/TV Globo

Empresa de Amim recebeu R$ 1,8 milhão de investigada, e posto adiantou R$ 1,6 milhão para ex-chefe da Civil comprar casa, diz PF
Empresa de Amim recebeu R$ 1,8 milhão de investigada, e posto adiantou R$ 1,6 milhão para ex-chefe da Civil comprar casa, diz PF · Imagem: Source: g1.globo.com

Uma empresa do ex-chefe da Polícia Civil do RJ Marcus Amim e de sua mulher recebeu R$ 1,821 milhão de uma companhia investigada na Operação Unha e Carne, em repasses mensais de aproximadamente R$ 70 mil, segundo a Polícia Federal.

A suspeita é que uma consultoria fictícia fosse usada para disfarçar pagamentos por proteção e influência do delegado.

A investigação também identificou que um posto de combustíveis ligado ao grupo adiantou R$ 1,62 milhão para a compra de uma casa de R$ 3,28 milhões por Amim em Camboinhas, em Niterói, na Região Metropolitana do Rio.

Amim foi preso nesta quinta-feira (15), na oitava fase da operação. A ação também prendeu Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo deputado estadual mais votado do RJ nas eleições deste ano, e quatro inspetores da Polícia Civil.

As defesas de Canella e Amim informaram que não vão se pronunciar até terem acesso aos autos.

Márcio Canella, 2º deputado estadual mais votado do RJ, e Marcus Amim, ex-chefe da Polícia Civil, são presos pela PF

Segundo a PF, o grupo usava uma rede de postos de combustíveis para lavar dinheiro e contava com agentes públicos para proteger suas atividades. Os investigadores apontam Amim, que também presidiu o Detran-RJ, como responsável pela proteção institucional do esquema.

Repasses de R$ 70 mil por mês

A quebra do sigilo bancário identificou transferências da ADM Oil Prestadora de Serviços para Postos de Gasolina para a Mamim Consultoria, empresa de Amim e de sua mulher, Lylyane Maia Correia Costa.

Segundo a PF, os repasses ocorreram entre 9 de abril de 2024 e 8 de maio de 2026, em pagamentos recorrentes de aproximadamente R$ 70 mil mensais, que somaram R$ 1,821 milhão.

Para os investigadores, o padrão é compatível com o uso de uma consultoria fictícia para dar aparência legal a pagamentos que, na prática, remunerariam a proteção e a influência do delegado.

A ADM Oil é apontada como uma central de recebimento e distribuição de dinheiro do grupo. Segundo a investigação, a empresa recebia valores da rede de postos e os repassava a pessoas físicas e jurídicas ligadas ao esquema.

A PF identificou ainda outros R$ 394.658 transferidos pela J R Posto de Combustíveis à Mamim Consultoria.

No parecer favorável às prisões, a Procuradoria-Geral da República afirmou que Amim se valia dos cargos de cúpula que ocupou no Detran e na Polícia Civil para proteger as atividades ilícitas da organização, recebendo por meio de consultoria fictícia e de participações empresariais.

Casa foi colocada à venda em 2023

A negociação do imóvel em Camboinhas foi detalhada à PF pelos antigos proprietários da casa, na Rua Doutor Damasceno Ferreira.

Segundo o depoimento, o imóvel foi colocado à venda em dezembro de 2023 e negociado com a intermediação de corretores. A venda para Amim foi fechada por R$ 3,28 milhões, com contrato firmado em 24 de dezembro de 2024 e efetivação em 4 de abril de 2025.

O relato e os registros bancários apresentados na investigação descrevem o seguinte caminho do dinheiro:

- 24 de dezembro de 2024: pagamento de R$ 160 mil em espécie, entregue por um intermediário da operação c

- 8 de abril de 2025: transferência de R$ 1,62 milhão para os proprietários feita pelo Posto Pendotiba, e não de uma conta de Amim.

- 7 de maio de 2025: nova transferência do posto, de R$ 1,5 milhão, descrita como uma “garantia”. Segundo a PF, o depoimento não esclarece a contrapartida ou a finalidade negocial desse pagamento.

- 23 de maio de 2025: transferência de R$ 1.511.654,98 para a conta dos proprietários. No mesmo dia, por orientação de Amim, o valor foi integralmente devolvido à conta do Posto Pendotiba.

O Posto Pendotiba estava registrado em nome das mulheres dos policiais civis José Carlos Alves de Souza Júnior e Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo. Os dois também foram presos nesta quinta-feira.

Ao analisar as movimentações, a PF concluiu que R$ 1,62 milhão do preço da casa foi efetivamente adiantado pela empresa, e não pelo delegado.

Para os investigadores, o pagamento por uma empresa sem vínculo societário com Amim constitui indício de dissimulação da origem do dinheiro e do real responsável pelos recursos usados na compra.

Documentos de obra e multas enviados a policial

A investigação também encontrou mensagens em que Amim encaminhava a Pablo Russo documentos relacionados a uma obra na casa de Camboinhas. Para a PF, as conversas constituem indício de que o policial seria responsável pelo pagamento do serviço.

Os investigadores identificaram ainda o envio de arquivos denominados “MULTA”, com boletos de autuações de trânsito de um veículo registrado em nome da Mamim Consultoria.

Na avaliação da PF, as mensagens reforçam os indícios de tratamento extraoficial de assuntos particulares dentro do grupo investigado.

Sociedade oculta em posto

Além dos repasses e dos pagamentos relacionados ao imóvel, a PF aponta que Amim era sócio oculto da Gasmix Alcântara, ao lado dos irmãos Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes, ambos policiais civis presos na operação.

Segundo a investigação, a participação dos três não aparecia nos registros públicos da empresa, que permanecia formalmente em nome das mulheres de José Carlos e Russo.

Anotações apreendidas na casa de José Carlos também registravam repasses a uma pessoa identificada como “Amim”, provenientes de diferentes postos. Para a PF, os documentos reforçam os indícios de participação do delegado na estrutura financeira do grupo.

Operação investiga movimentação de R$ 7,6 bilhões

As prisões desta quinta-feira foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em um desdobramento da sexta fase da Operação Unha e Carne, realizada em julho.

Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentação de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026 na rede de pessoas e empresas analisadas.

Além das seis prisões, a operação desta quinta teve 16 mandados de busca e apreensão em sete municípios fluminenses. Moraes também determinou o sequestro de bens e valores e a suspensão das atividades econômicas de 112 empresas investigadas, a maioria postos de combustíveis.

O g1 tenta contato com todos os citados.