Matheus Leitão

Vice já fez Constituição, criou moeda e mudou a lei do trabalho. Secchin pergunta quem está pronto para isso, Alckmin ou Gaspar

Matheus Leitão
15/10/2026 19:28
Dani Paiva/Arquivo Pessoal
Na urna, o nome do vice aparece pequeno, quase um rodapé. Pouca gente repara. E é ali, nas letras miúdas, que o Brasil costuma guardar suas surpresas.
Quem lembrou disso foi um homem que passou a vida lendo rodapés. Antonio Carlos Secchin é poeta, crítico e ocupa a Cadeira 19 da Academia Brasileira de Letras. João Cabral de Melo Neto dizia que ninguém tinha lido sua obra tão bem quanto ele. Secchin quase nunca fala de eleição. Quando fala, vale ouvir. Escreveu ele nas redes.
“Há um fator que vem sendo desconsiderado no debate político, e que talvez seja importante para a definição dos votos de indecisos: haverá dois candidatos eleitos, o presidente e o vice, não apenas um. No Brasil, desde a o fim da ditadura, nada menos do que a metade dos presidentes, 3 em 6, foi, por diversos motivos, substituída pelo vice: Tancredo, Collor e Dilma. Então, na eventualidade de algum incidente (como ocorre com frequência em nossa História), a pergunta que o eleitor deve responder é: Quem é mais confiável e capacitado para assumir a presidência? Geraldo Alckmin ou Alfredo Gaspar?”
Duas vidas
Geraldo Alckmin tem 73 anos e quase cinco décadas de vida pública. Médico de Pindamonhangaba, foi vereador aos 19, depois prefeito, deputado, vice de Mário Covas e governador de São Paulo. Vice-presidente, comandou também o Ministério da Indústria e Comércio até abril, quando se licenciou para concorrer.
Alfredo Gaspar tem 55. Foi promotor em Alagoas por 24 anos e está no primeiro mandato de deputado federal. Ficou conhecido como relator da CPMI do INSS, cujo relatório a própria comissão rejeitou. Nem estava entre os cotados e só apareceu depois que PP e Republicanos recusaram apoio a Flávio. Gente da própria campanha chamou a escolha, em reserva, de “questionável”. Um foi mais curto e disse “péssimo”.
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Pesava sobre ele uma acusação grave, levada ao Supremo por Lindbergh Farias e Soraya Thronicke, de que teria engravidado uma menina de 13 anos em Alagoas. No dia 6 de outubro, o ministro Gilmar Mendes arquivou o pedido de investigação, atendendo à Procuradoria-Geral da República, que não encontrou provas suficientes. Gaspar sempre negou, chamou a denúncia de vil e falsa e já ganhou, em primeira instância, R$ 50 mil de indenização contra Soraya.
O homem que aprendeu a desdizer
Alckmin nunca foi de palco. Quando o apelidaram de “picolé de chuchu”, achou graça e mandou quem quisesse espetáculo ir ver Tom Cavalcante.
Em abril de 2015, perdeu o filho caçula, Thomaz, num acidente de helicóptero. Não fez da dor um discurso. Desde então, a família caminha até Aparecida pela Rota da Luz, trilha de romeiros criada no governo dele. No ano passado foi a décima vez, e chegaram à Basílica no dia em que Thomaz faria aniversário.
Perdeu duas eleições presidenciais, saiu do partido que ajudou a fundar e parecia aposentado. Em 2017, tinha acusado Lula de querer “voltar à cena do crime”. Quatro anos depois, com a democracia em risco, aceitou sentar com o velho adversário, numa conversa que Fernando Haddad ajudou a costurar. Desdisse sem se desmentir. Pôs o país na frente da própria biografia.
A voz baixa virou método, assim como suas meias exóticas. Quando o tarifaço de Trump caiu sobre o Brasil, Lula entregou a ele a negociação, por saber ser educado com o pequeno e com o grande. Até o petista Luiz Marinho, que dizia ter ojeriza ao seu perfil, reconhecia o trato gentil.
Está casado com Lu há mais de quarenta anos. Ela criou a Padaria Artesanal, que em um único dia ensina dez tipos de pão a quem precisa de renda. Em um ano, já eram 63 unidades pelo país e mais de duas mil pessoas formadas. Há quem prometa pão. Lu ensina a fazer.
O homem que fala alto e some na hora de votar
Gaspar se apresentou como “soldado” e “para-choque”. O histórico mostra algumas batidas. Em 2025, quando a senadora Eliziane Gama cobrou dele respeito às mulheres na CPMI, ele respondeu lembrando que a irmã dela poderia ser convocada. As falas foram apagadas das notas taquigráficas. Em março, na leitura do relatório, Lindbergh passou do limite e gritou a acusação. Gaspar devolveu dizendo que só tinha “estuprado” corruptos e chamou o colega de bandido e cafetão. O caso foi parar no Conselho de Ética.
Há ainda R$ 6,2 milhões em emendas Pix mandadas por ele para São José da Laje, em Alagoas. O TCU apontou que parte do dinheiro perdeu o rastro, e a vice-prefeita da cidade tinha trabalhado no gabinete dele. O caso entrou num inquérito maior do STF sobre emendas. Gaspar diz que tudo foi regular. Não há condenação, só perguntas.
E houve um silêncio. Quando a Câmara aprovou a PEC da Blindagem, que as ruas chamaram de PEC da Bandidagem, o ex-promotor que se diz caçador de corruptos não votou. Nem sim, nem não. Para quem tem tanta palavra contra os outros, faltou justamente a que ficaria registrada.
Quando o rodapé vira texto
A conta de Secchin está certa, e os vices fizeram história. Sarney conduziu a volta da democracia e entregou a Constituição de 1988. Itamar, subestimado por quase todos, deu ao país o Plano Real, com Fernando Henrique na Fazenda. Temer, que em 2015 escreveu a Dilma reclamando de ser um “vice decorativo”, estava na cadeira dela cinco meses depois e aprovou o teto de gastos e a reforma trabalhista. Poucas queixas foram atendidas tão depressa.
Até quem não subiu pesou. José Alencar acalmou o mercado na chegada de Lula, criticou os juros do próprio governo sem romper com ele e enfrentou um câncer com uma coragem que comoveu o país. Decorativo, nunca foi.
Antes deles, Floriano segurou a República recém-nascida, Nilo Peçanha plantou a semente das escolas técnicas federais, Café Filho assumiu depois do tiro no Catete e Jango entrou depois da renúncia de Jânio.
A última linha
A poesia reunida de Secchin se chama Desdizer. O título serve para este segundo turno. Um dos vices soube desdizer o que disse, em nome de algo maior. O outro diz o que não se diz e cala quando devia falar. No dia 25, antes de apertar o confirma, fica uma pergunta. Faça como o poeta e leia o rodapé?


